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51 anos do Golpe Militar

Senhora Presidente.

Senhoras e Senhores Deputados.

O assunto que me traz à Tribuna hoje é o registro dos 51 anos do Golpe Militar de 64, que resultou em mais de 20 anos de ditadura no Brasil.

É preciso relembrar o que acontecia no País no início da década de 60 para compreender as manifestações, os gritos que vêm das ruas nos dias hoje. É preciso entender o passado para olhar o presente e o futuro.

A renúncia de Jânio Quadros, em 1961, colocou João Goulart, mais conhecido como Jango, na Presidência da República.

Nos planos do presidente João Goulart estavam as reformas de base, que pretendiam reduzir as desigualdades sociais brasileiras. Entre estas, estavam as reformas bancária (para ampliar crédito aos produtores), eleitoral (para ampliar o voto aos analfabetos e militares de baixas patentes), educacional (para valorizar os professores, oferecer ensino para os analfabetos) e agrária (para democratizar o uso das terras).

O perfil de Jango logo preocupou as elites, que temiam uma alteração social que ameaçasse seu poder econômico. O estopim para o golpe militar aconteceu em março de 1964, quando Jango, após um discurso inflamado no Rio de Janeiro, determinou a reforma agrária e a nacionalização das refinarias estrangeiras de petróleo.

A reação das forças políticas e financeiras da época, representadas pelo clero conservador, a imprensa, o empresariado e a direita em geral, organizaram, em São Paulo, a "Marcha da Família Com Deus pela Liberdade", que reuniu cerca de 500 mil pessoas. O cenário para o Golpe estava pronto.

Começava aí a preparação para os anos de chumbo. A ditadura montou um sistema repressivo que impôs a perseguição, o desaparecimento, o exílio, a tortura e a morte de muitos professores, políticos, estudantes, músicos e artistas que iam contra o regime.

A redemocratização do nosso País foi lenta e dolorosa. Memórias horrendas da repressão ainda estão muito vivas entre nós. Faço referência apenas a uma dessas tristes lembranças, para homenagear todos que lutaram contra as forças militares: a presidente da República, Dilma Rousseff. Presa durante três anos, ainda guarda no corpo e na alma as marcas da ditadura.

E hoje, o que representam as manifestações das ruas? O que elas querem para o Brasil?

Há uma diferença brutal entre o Brasil dos anos 60 e o Brasil de hoje, que poucos percebem. Naquela época, mais da metade da população brasileira era analfabeta.

O regime militar manipulou essa massa que não sabia ler, nem escrever, mostrando um País em pleno desenvolvimento, forte e progressista. Foi o chamado “Milagre Econômico”. Para termos uma noção da grandeza deste feito, um crescimento deste porte só foi conseguido pela China atualmente.

Mas vamos voltar a falar das manifestações atuais. Os que defendem a volta do regime militar, o fazem pela lembrança maquiada de um País seguro e em desenvolvimento, sem conhecimento do que acontecia nos porões escuros da ditadura? Ou porque naquela época seus interesses econômicos estavam preservados? E os jovens que não viveram esse período? Será que as aulas de História pularam as páginas mais tristes do nosso Brasil?

Esqueceram que hoje podem manifestar livremente seu pensamento justamente porque a democracia foi restabelecida?

São lições que não podem ser esquecidas, jamais. A nossa população, hoje alfabetizada, continua na indigência cultural. Defende, sem saber o que defende. É aí que as elites apoiam suas bases para montar novamente o cenário, de acordo com seus interesses mais imediatos. Um verdadeiro perigo para a nossa Democracia, alcançada a custas de muitas vidas.

A Comissão da Verdade aponta pelo menos 50 mil atingidos direta ou indiretamente em seus direitos e cerca 400 mortos, número que pode triplicar em função das violações cometidas contra os indígenas no Araguaia. Neste balanço, não se contam as mortes provocadas pelos efeitos indiretos da ditadura, como aquelas derivadas do péssimo sistema de saúde e de saneamento públicos, que mantiveram altíssimas taxas de mortalidade infantil.

Portanto, senhora Presidente, o dia 31 de março é uma data para ser lembrada, para que não volte nunca mais, para que nunca mais aconteça.

Salve as liberdades democráticas! Acima e antes de tudo!

Muito Obrigado.

Ricardo Vale

Sala das Sessões, 31 de março de 2015.

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