Canal Ricardo Vale
Entrar  \/ 
x
ou
 Usar o Facebook  Usar o Google
Cadastrar  \/ 
x

ou
 Usar o Facebook  Usar o Google

Sobre viagem a Cuba

Boa tarde senhora presidenta, senhoras deputadas e senhores deputados.

Na última semana recebi, muito honrado, o convite feito pela Embaixada de Cuba no Brasil, na pessoa da embaixadora Mariela Ruiz Capote, para integrar uma delegação de parlamentares brasileiros que viajarão a Cuba para as festividades do 1º de maio. Na viagem, além de participar da celebração pelo dia do trabalhador, visitarei a Assembleia Nacional do Poder Popular, a Federação de Mulheres Cubanas (FMC), uma experiência de atendimento à saúde primária e outra na área de educação.
A despeito das diferenças entre os sistemas políticos que prevalecem em nossos países, a relação entre Cuba e o Brasil foi marcada pelo reconhecimento e respeito. Exceto durante o período da ditadura brasileira, entre 1964 e 1985, em que reconhecimento e respeito não eram a tônica das relações estabelecidas pelo Estado Brasileiro nem com seus compatriotas, o Brasil sempre respeitou a autodeterminação do país caribenho. O comércio entre os dois países movimentava algo em torno de R$ 600 milhões de dólares em 2008 e a troca de expertises e recursos humanos entre as duas nações é uma constante.
No último fim de semana o mundo assistiu a primeira reunião entre o presidente de Cuba e Estados Unidos desde o triunfo da Revolução Cubana. Embora a ação não tenha posto fim ao embargo econômico, financeiro e comercial que os Estados Unidos impõem ao país caribenho desde 1961, reforça a intenção de intensificar as relações diplomáticas entre as duas nações, proposta que teve início em 17 de dezembro. A reunião ocorreu durante a Cúpula das Américas, no Panamá, e os dois presidentes manifestaram intenções em discutir temas que os aproximam e reforçaram que há inúmeras possibilidades de cooperação entre os dois países.
Cuba tem sido reconhecida internacionalmente como exemplo na oferta de políticas públicas de proteção social, saúde e educação. Desde 1959 o país adotou a educação como principal prioridade. Em um ano, (1962) o país praticamente erradicou o analfabetismo e vem investindo massivamente na formação básica, média, superior e pós graduação. O país foi o único na América Latina e Caribe a atingir os Objetivos mensuráveis da Educação para Todos, período 2000-2015, propostos pela Unesco. Hoje o editorial do Correio Braziliense nos lembrou que, tristemente, o Brasil cumpriu apenas dois dos seis pontos. Na semana passada já havia alertado que levaremos, no ritmo que estamos indo, trinta anos para garantirmos educação de qualidade universal e funcional.
A educação em Cuba é integral e oferta atividades artísticas, orientação e formação profissional, entretenimento e desporto, o que acabou por elevar o país a posições de destaque no mundo dos esportes olímpicos. Lembro-me de uma história contata por amigos sobre uma visita que fizeram a Ilha e como sabemos, o país vive em uma situação financeira difícil e duas crianças, uma de nove e outra de 11 anos, se ofereceram para ser guia deles, a troco de alguns pesos cubanos. Meus amigos ao ouvirem, maravilhados, que o garoto de nove anos tocava trompete e o de 11 violino, perguntaram a eles onde haviam aprendido a tocar os instrumentos e os garotos, incrédulos, responderam que na escola, onde mais seria?!?!.
A qualidade da formação educacional cubana também foi reforçada pelo Banco Mundial, em relatório publicado em setembro de 2014 elogiou a educação lá. O país destina hoje 13% do orçamento nacional para a pasta, erradicou o analfabetismo e conta com professores de alta qualificação.
O cuidado com a educação pode ser também uma das explicações para os altos índices da saúde na ilha. O país erradicou certas doenças e tem atendimento médico universal e gratuito. Ainda de acordo com o relatório do Banco Mundial, oferece água potável e saneamento básico a todos, atingiu os menores índices de mortalidade infantil e uma das maiores taxas de expectativa de vida do mundo.
A medicina cubana é referência em biotecnologia e na produção de bio-farmacos. Em 2008 a brasileira EMS e a estatal Quimefa assinaram contrato para produção de medicamentos para asma com tecnologia cubana e a produção de medicamentos genéricos na ilha. Naquele ano, os medicamentos foram o principal produto de exportação do país que também é mundialmente reconhecido por sua disposição em levar saúde a países em situações extremas. O jornal The New York Times, em editorial publicado em outubro de 2014, ressaltou a importância da prestação de serviço médico cubano aos países da África Ocidental na epidemia de ebola. Naquele episódio, acordo entre Cuba e a Organização Mundial de Saúde (OMS), levou cerca de 300 médicos para Serra Leoa, Guiné-Bissau, Libéria e Nigéria. Estes se somaram a outros 4 mil médicos cubanos que já viviam na África, dos quais 2 mil em Angola. Médicos cubanos foram indispensáveis para conter a epidemia de cólera que o Haiti enfrentou como resultado último do terremoto que atingiu o país em 2010. Em 2005, dias depois do furacão Katrina ter devastado Nova Orleans, o governo cubano preparou e ofereceu um corpo médico de reação rápida aos Estados Unidos, que recusaram a ajuda. E hoje, no Brasil, 11.400 médicos atendem nos 26 estados mais o Distrito Federal. Aqui, 59 profissionais da ilha caribenha compõem equipes de Saúde da Família em 12 regiões administrativas.
Por isto, avalio ser de extremamente relevante as visitas que faremos às duas experiências que estão programadas, uma na área de saúde e outra na área de educação.
Eu, senhoras deputadas e senhores deputados, acredito e defendo a autodeterminação dos povos. Creio que todo país deve ser livre para discutir e decidir internamente quais são os melhores caminhos que melhor atendam o anseio de seu povo e garantam melhores condições de vida à sua população. Por isto, vamos visitar a Assembleia Nacional do Poder Popular, instância que se assemelha à nossa Câmara dos Deputados. Vou conhecer, de perto, como funciona o sistema político de Cuba .
Um dos desafios Objetivos Mensuráveis da Educação para Todos não atingidos pelo Brasil e que Cuba superou foi a igualdade de gênero no acesso à educação. A Federação das Mulheres Cubanas foi indispensável para a superação desta meta, como também para a conquista da igualdade de condições de trabalho, saúde e direitos reprodutivos femininos.
No ano em que a presidenta Dilma Rousseff, ao assumir seu segundo mandato, escolhe o lema Brasil, pátria educadora, e quando pesquisa da Unicef mostra a dificuldade do país em oferecer qualidade de educação e manter jovens no ensino médio, é oportuno conhecer experiência de um país que elegeu educação sua prioridade e está colhendo agora a transformação de sua sociedade com mais saúde e direitos para todas e todos. Muito obrigado.

Entre para postar comentários